Célio Simões (*)
A expressão “QUEM VAI AO INFERNO SE ACOSTUMA COM O DIABO” não tem origem em um fato ou episódio determinado. Nem se pode atribuir uma data em que surgiu ou mesmo a sua autoria, pois é tipicamente um produto da tradição oral e da sabença popular.
É evidente que a frase tem forte caráter metafórico, ligado ao imaginário cristão da época medieval, sobre as punições reservadas no submundo das trevas, para quem dá com os costados por lá e encontra a pavorosa figura do “Capiroto” imperando, pintando e bordando em seu reino de maldades.
É nesse contexto que referido ditado popular, ouvido desde épocas imemoriais, serve para demonstrar a capacidade do ser humano em se adaptar a situações altamente adversas e até com elas se conformar, com o escoar do tempo.
Se bem observado, em nosso ciclo de conhecimento, relações de parentesco, coleguismo ou amizades, revela-se patético como certas pessoas acabam por normalizar situações ruins, aflitivas ou tóxicas, em nome de um convívio pacífico, porém altamente desgastante, quando o correto seria dar um “chega prá lá” naqueles que se deleitam em aporrinhar a vida alheia.
Imagine-se alguém, por falta de opção, ter de conviver com gente falsa, hostil e interesseira, que acende uma vela a Deus e outra ao diabo e de lá não se afasta, preferindo suportar resignado, esse tipo de suplício psicológico.
A explicação mais plausível é que o ser humano, em tais hipóteses, acaba por se habituar com aquelas figuras nocivas e desagregadoras que contaminam os variados espaços de convívio social. Configura-se, no caso, a hipótese em que “o vício do cachimbo deixa a boca torta”, outra conhecida expressão popular, que também enseja abordagem específica neste espaço.
A tolerância excessiva no trato com situações deletérias tem um componente moral indissociável, podendo ser identificada em alguém que ao se saber em péssimas companhias não as evita, agindo com forçada naturalidade, mesmo tratando reiteradamente com quem nada de útil lhe acrescenta.
O certo é que o dito popular em foco partilha da mesma lógica de conformismo e resignação diante de um cenário ruim. Historicamente, expressões que utilizam as figuras do "inferno" e do "Tisnado" (como "comer o pão que o diabo amassou" ou "o diabo a quatro") ganharam muita força na Península Ibérica na Idade Média e no período colonial. A Igreja Católica medieval utilizava o medo do inferno para moldar comportamentos, como aliás, ainda até hoje acontece.
Com o tempo, o povo passou a usar esses elementos religiosos para criar máximas filosóficas no cotidiano. Na expressão em análise, a sabedoria popular sintetizou a imensa capacidade do ser humano de se adaptar, inclusive às piores circunstâncias e toscas situações que a vida reserva para cada qual.
A expressão também sintetiza a estética das músicas de Bezerra da Silva e de célebres compositores dos morros cariocas como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, que transformaram a realidade das favelas em poesias eternas da Música Popular Brasileira produção musical que foi o pilar que deu identidade e formato ao samba urbano moderno. Em suas letras, o "inferno" representa a favela negligenciada pelo Estado, e o "diabo" simboliza a convivência forçada com a violência e a criminalidade, sínteses do cotidiano de quem precisa se acostumar com aquela brutal adversidade para conseguir sobreviver.
Em 1976, Belchior deu sua contribuição ao tema com “COMO O DIABO GOSTA” e Raul Seixas, o inesquecível “Maluco Beleza” marcou presença em “FAZENDO O QUE O DIABO GOSTA”, onde ele fala de um amor transgressor, fora dos padrões tradicionais da igreja e do casamento convencional. Conjuntos famosos se autodenominaram com essa temática infernal, como os DEMÔNIOS DA GAROA, deixando claro que esse ditado resume a ideia de resignação ou adaptação a uma ou a várias situações indigestas.
Na festejada Escolinha do Professor Raimundo, dona Cândida (interpretada pela atriz Stella Freitas), se apresentava trajada à moda caipira e descrevia os maus-tratos, os horrores e os hematomas causados pela violência do marido. E quando lhe perguntavam o porquê de suportar aquele suplício na tumultuada relação conjugal, o motivo de tanta humilhação, ela respondia sorridente recitando com forte sotaque seu afamado bordão: - MAS EU GOSTO!!!
O quadro da “Escolinha” retratava a situação na qual o lar virou um inferno e o marido encarna o próprio “Satanás”, com o qual as mulheres, suas vítimas prediletas, supostamente blindadas pela Lei Maria da Penha, acabaram se acostumando e assim vão tocando a vida. Elas certamente fazem isso talvez por necessidade, mecanismo de sobrevivência ou absoluta falta de opção.
Mais grave é aquela parcela do povo brasileiro, grande parte integrante da massa popular que vive de prebendas, que não só se acostumou com as nocivas peripécias do “Coisa Ruim”, das quais são as eternas vítimas, como por ele desenvolveu estranhos sentimentos de empatia, admiração e lealdade, deturpação psicológica que até Freud teria hoje dificuldade de explicar...
(*) CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro das seguintes instituições culturais: Academia Paraenses de Letras, de Letras Jurídicas, de Jornalismo, Literária Interiorana, Artística e Literária de Óbidos, da Literária Interiorana, de Letras e Artes da Polícia Militar do Pará, da Academia Santarena de Direito e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, da União dos Juristas Católicos de Belém e do Instituto dos Advogados do Pará. Foi juiz do TRE/PA e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/PA. É autor seis livros, recebeu menções honrosas, distinções, condecorações e possui três prêmios literários.