TERÇA DA CULTURA POPULAR: “Camisa de Onze Varas”

TERÇA DA CULTURA POPULAR: “Camisa de Onze Varas”

Célio Simões (*)

Quem informalmente ainda não ouviu sobre alguém ter feito uma bobagem sem tamanho e por causa disso acabou metido em uma “CAMISA DE ONZE VARAS"?... A expressão significa exatamente isso. Que o sujeito, por interesse, curiosidade ou mesmo de graça, se envolveu em um problemão, assumiu compromisso muito superior à sua capacidade de realização ou entrou sem necessidade em uma situação difícil, de complicada e impossível saída.

Em resumo, a criatura, que nada tinha a ver com a bronca alheia, meteu a colher enferrujada, assumiu a responsabilidade e como também dizem, “entrou numa fria”, “arranjou sarna para se coçar”, “cutucou a onça com vara curta”, enfim... “achou pro dele”...

Sua origem remete ao conceito histórico de uma insuspeita medida de comprimento linear, subdividida em outras unidades antropométricas baseadas no corpo humano antigamente utilizada - e também de um conceito punitivo, de penalidade e execração públicas.

Como medida de comprimento tradicional utilizada em Portugal - e no Brasil até a adoção do sistema métrico decimal no século XIX - uma vara equivalia a 110 centímetros. Assim, uma camisa de onze varas, teria pouco mais de absurdos 12 metros de pano e isso não é pouca coisa!

É considerada avantajada uma camisa deste tamanho? Claro que sim! A título de simples cotejo, basta lembrar que uma camisa masculina de um adulto (seja tamanho M ou G) consome geralmente entre 1,5 e 2 metros de tecido. Assim, 12 metros equivalem de 6 a 8 vezes o padrão de uso de um homem feito, destinada a uma estrutura corporal gigante, um figurino cênico exagerado ou ainda, uma peça artística monumental. Imensa, anedoticamente é quase a lona de um circo, ou a somatória da vela grande mais a bujarrona de uma igarité...

Em sua conotação punitiva, duas explicações históricas justificam essa túnica gigante. Durante o período da Inquisição Episcopal (a partir de 1184) traduzia a atuação dos tribunais eclesiásticos criados pela Igreja Católica, posteriormente controlados por coroas monárquicas, com o objetivo de identificar, julgar e punir pessoas acusadas de heresia, que professavam crenças, doutrinas ou práticas contrárias aos ensinamentos da fé cristã. Era a vestimenta (também denominada de “alva") imposta aos condenados nos rituais de punição pública. Aparecer vestido com essa peça, significava já estar sob séria condenação ou ainda, em processo de severo julgamento.

Também a usavam compulsoriamente os condenados à morte, depois de serem submetidos a cruéis torturas, como revelam certas tradições do antigo direito penal, pois vestir um camisolão excessivamente longo, pesado e sufocante, antes de subir ao patíbulo ou arder nas fogueiras do Santo Ofício, servia tanto para imobilizar o réu, quanto para humilhá-lo publicamente.

Assim, por envolver o uso de uma roupa absurdamente incômoda, associada quase sempre a um destino trágico, o ato de "se meter" nessa abominável túnica ou camisa virou metáfora para descrever situações nas quais a pessoa se encalacrou de vez, numa complicação que em princípio poderia ter sido evitada.

No imaginário diálogo entre dois conspiradores, durante o célebre levante urdido por civis, sargentos, cabos e soldados do Exército, que numa noite aprisionaram toda alta oficialidade do antigo 4.º Grupo de Artilharia de Costa, única tropa fora de São Paulo que aderiu à Revolução Constitucionalista de 1932, o genial escritor e mestre da ficção Ildefonso Guimarães (“OS DIAS RECURVOS”, p. 26) utilizou com admirável criatividade essa expressão:

“- Sinceramente Heráclito, o que você acha de tudo isto? – indaga Pereira, rompendo, finalmente, o mutismo de ambos. Será que no frigir dos ovos não vamos acabar metidos numa camisa de onze varas?

- Pela parte que me toca – responde o outro – irei até o fim da linha para ver que bicho dá. Se nada tiver a ganhar, a perder é que não tenho, porque f.... eu já estou, de qualquer maneira. Tudo o que pode acontecer, para mim é melhor do que não tentar qualquer coisa para acabar com a catinga de barata (**) que empesta o nosso Estado há mais de dois anos”.

Na MPB, a excelente cantora Alcione, em "O SAMBA SEMPRE FOI SAMBA", traz a expressão no verso "O TRAJE QUE O SAMBA USA / É CAMISA DE ONZE VARAS", utilizando a imagem para ilustrar as dificuldades, a resistência e a história de luta do samba ao longo do tempo. Também aparece ela no Teatro de Revista, em musicais do século XIX e do início do XX (espetáculos citados na Revista Brasileira de Música da UFRJ), associando a vestimenta a enredos e casos populares. Está presente também em registros fonográficos antigos, no acervo da discografia brasileira com o título "Camisa de Onze Varas" (gravações no selo Victor, dos anos iniciais do século XX).

Nestes tempos bicudos de acirrada porfia eleitoral para o segundo turno da eleição presidencial, contrapondo candidatos com idades, ideologias, condutas e imagens públicas diametralmente opostos, fazendo velhas amizades ruíram em razão do cego radicalismo, oxalá o povo brasileiro vote com lucidez para que não venha mais tarde dizer-se vítima de sua má escolha, continuando metido até o pescoço numa camisa de onze varas como hoje se encontra!...

(*) CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Formado em Direito pela UFPA e pós-graduado em Direito do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). É membro da Academia Paraense de Letras, de Letras Jurídicas, de Jornalismo, Artística e Literária de Óbidos, Literária Interiorana, de Letras e Artes da Polícia Militar do Pará, da Confraria Brasileira de Letras de Maringá (PR), do Instituto dos Advogados do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós e da União dos Juristas Católicos de Belém. É autor de seis livros e recebeu três prêmios literários.

(**) O general Joaquim de Magalhães Cardoso Barata  foi um militar de carreira e político, nomeado interventor federal no Pará de 12/11/30 a 12/04/35, governando com poderes quase absolutos, pois se vivia no País em regime de exceção, por isso colecionou grandes amizades e muitas inimizades. “Catinga de barata”, em alusão ao seu sobrenome, era uma expressão muito usada pelos seus ferrenhos adversários, para espezinhá-lo ou a seus fiéis adeptos.

 

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