SAUDOSISMO SADIO

SAUDOSISMO SADIO

Haroldo Figueira.

Há quem critique o saudosismo, por vê-lo como um sentimento antiquado, já que voltado para as coisas que passaram. Estaria enquadrado, por assim dizer, na linha do jocoso dito popular “quem gosta de passado é museu”. Não concordo com isso.  Pessoalmente, assumo-me como um saudosista que, sem alhear-se do que a atualidade oferece de emocionalmente gratificante, dá valor tanto aos bons momentos de agora quanto aos de outrora.

Com efeito, entendo que, independentemente da época em que se deu, tudo o que para nós foi motivo de satisfação merece ser preservado com carinho e em lugar de fácil resgate na memória, até porque, recordar de vez em quando acontecimentos prazerosos deixa-nos de alma renovada. Serve, inclusive, para reforçar o nosso convencimento de que viver vale a pena.

Além do mais, se pensarmos bem, na convencional divisão do tempo só o que conta é o passado, pois o futuro a Deus pertence e o presente é tão efêmero que passa em questão de segundos. Ora se a rigor quase tudo é passado, qual a diferença que existe entre guardar apreço pelo que de bom me sucedeu há muitos anos ou mais recentemente? Há sim, sutil, mas há. Isso fica evidente ao final.

Como não lembrar da época fagueira da minha infância em Óbidos quando, solto na natureza, não precisava de brinquedos sofisticados para me divertir ao lado dos meus companheiros. Empinar papagaios, bater uma bola em terrenos baldios ou na rua mesmo, correr pelas calçadas impulsionando aros de metal com ganchos feitos de arame, brincar de belário em três modalidades distintas: no chão, nos galhos de árvores ou dentro d’água, jogar petecas (bolas de gude), pião, pescar, banhar-me nas águas tépidas do Amazonas ou na corrente fria do Curuçambá?

Ou do tempo de aluno do Colégio São José, dos professores Frei Rodolfo, Maria Iza de Souza, Douglas  Cohen, Maria José Caluff, Irmã Otaviana, entre outros dedicados mestres a quem devo muito do que sei e sou; do canto orfeônico regido pela Irmã Canízia; Das atividades filantrópicas que, como membros da Sociedade Estudantil de Assistência Social (SEAS), realizávamos com desvelo junto às pessoas carentes da periferia, visitando-as, em equipes mistas, todo final semana; das quermesses, da bandinha da qual eu fazia parte; do convívio fraterno e divertido com os colegas?

Ainda relacionado à época da juventude, não dá para esquecer dos bailes da ARP, das serenatas ao luar, dos embates futebolísticos entre Mariano e Paraense no antigo Rego Barros, dos encontros e bate-papos animados ao cair da noite na esquina e no interior do Bar Andrade, do vagar pelas madrugadas, aos sábados, fazendo serenatas, com paradas obrigatórias nas mercearias do Chagas ou do Sabá Arara para umedecer a garganta e forrar o estômago.

E as festividades do mês de julho, como não as evocar?  Dessa época em que se celebra a festa de Santa’Ana, a padroeira dos obidenses, sobram vívidas reminiscências. Do círio fluvial, da catedral iluminada de alto a baixo e cheia; da praça que leva o nome da santa regurgitando de gente e de alegria; do reencontro de amigos que há muito não se viam; das paqueras, dos volteios pela pista de passeio público; da motivação participativa dos moradores e visitantes; do entusiasmo que toma conta da cidade que não arrefece nem mesmo quando o evento está prestes a terminar e que se revigora na expectativa de que “ano que vem tem mais”.

Guardo, na mente e no coração, recordações da conquista do primeiro emprego, do meu casamento, do nascimento dos meus filhos e netos, da temporada que passei em Manaus depois que saí de Óbidos... Bom, lembranças agradáveis tenho-as em profusão, até porque acumuladas ao longo da vida. Seria impraticável, além de abusar da paciência do leitor, mencioná-las todas, aqui.

Nos belos versos da canção Meus Tempos de Criança, o grande sambista Ataulfo Alves pratica um exercício de rememoração assemelhado ao que tento fazer neste espaço. Decanta sua meninice, a professorinha que lhe ensinou o beabá, as missas de domingo na igreja matriz de sua cidade Miraí, sua primeira namorada Mariazinha... E arremata com uma constatação que, quase invariavelmente, escapa ao discernimento da maioria das pessoas muito jovens que vivenciaram experiências ditosas: “eu era feliz e não sabia”.

Brasília, 30 de novembro de 2018

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