OS PÃES DO SEU ANTÔNIO

OS PÃES DO SEU ANTÔNIO

Haroldo Figueira

Pães de massa grossa e pães de massa fina. Assim eram chamados popularmente as duas variedades de alimentos derivados do trigo mais consumidas em Óbidos, nas épocas de minha meninice e juventude. Como os nomes sugerem, a consistência dos primeiros era mais firme, enquanto que a maciez caracterizava a dos últimos.  

Os pães que consumíamos em casa vinham da padaria do seu Antônio (vulgarmente conhecido como Antônio Padeiro), até porque ficava próxima de nossa residência, a cerca de cem metros descendo a Rua Deputado Raymundo Chaves. O dono do negócio (que também acumulava as funções de operário) enquadrava-se naquele perfil de pessoas que costumamos qualificar de gente boa. Homem simples, batalhador, chefe de família devotado, cordial, bom de conversa, companhia agradável.

Moradia familiar e panificadora formavam uma só unidade imobiliária (a parte residencial ficava atrás e a empresarial na frente) localizada bem aos fundos de um amplo terreno. Se a memória não me trai, a padaria achava-se "Santo Antônio", instalada em um grande salão de piso cimentado, com o forno revestido de barro localizado à esquerda da entrada principal, os recipientes de madeira para o preparo da massa, assemelhados a extensas gamelas, dispostos ao centro e as prateleiras para depósito dos pães crus, à direita.

O processo de produção era dos mais rudimentares, inteiramente manual. Para se ter uma ideia, a ação operacional no sentido de amaciar a substância pastosa decorrente do umedecimento da farinha de trigo consistia, literalmente, em esmurrá-la continuamente, até que alcançasse o ponto de densidade apropriado para a feitura dos pães.

Considerado o pequeno porte do empreendimento e as condições precárias de manufatura, não dava para diversificar muito a linha de produção. A despeito dessas limitações, porém, além dos dois produtos principais a que já nos referimos, rosquinhas e bolachas apelidadas de cabeças de macaco vinham somar-se à lista de bens produzidos.

Apetitosos, eis como adjetivaria os comestíveis fabricados na padaria do seu Antônio, especialmente as duas modalidades de pães a que fiz referência. Se os de massa grossa eram mais rijos, crocantes e na dose certa de sal, os de massa fina dissolviam-se na boca quando submetidos à mastigação, além de possuírem sabor levemente adocicado. Os primeiros equivaliam ao pão francês em quase tudo, menos na forma. Aliás, tanto aquele, quanto seus congêneres de massa menos densa,  tinham formato mais largo e um tanto arredondado no meio e terminavam afunilados e pontiagudos nas extremidades. Mediam aproximadamente vinte e cinco centímetros de comprimento.

Os pães estavam entre os complementos alimentares mais demandados pela população obidense. Até porque, na maioria dos lares, integravam o cardápio diário do consumo das famílias e se faziam presentes à mesa não apenas no café da manhã, mas na hora dos lanches matinais e vespertinos e ainda por ocasião do jantar.

Na condição de filho mais velho, cabia a mim, quando menino, a tarefa de fazer as compras de mantimentos de uso doméstico. Não gostava muito da incumbência, pois às vezes atrapalhava as brincadeiras. Essa má vontade, porém, não se aplicava à obrigação de ir à padaria, pela compensação que o encargo me proporcionava. É que no caminho de volta, aprazia-me decepar e saborear os bicos dos pães, mesmo a despeito das repreensões que recebia de minha mãe pela conduta inadequada.

Lembro-me que, na mocidade, ao retornar para casa, alta madrugada, depois de uma noite de boemia, a padaria tornava-se parada obrigatória. Ao passar em frente, não dava para resistir ao cheiro bom que impregnava o ar e que vinha da chaminé do forno a lenha. O jeito era entrar, comprar um pão de massa fina bem quentinho que seu Antônio, pessoalmente, fazia questão de servir aberto em bandas lambuzadas de manteiga e degustar o petisco, gulosamente, ali mesmo.

Dada a trivialidade do assunto, alimentos comuns do dia-a-dia raramente motivam alguém para escrever a respeito. Penso, todavia, que, no caso sob enfoque a exceção se justifica, até em função do viés  sentimental que o tema contempla. De fato, trago à superfície uma recordação que carrego com carinho na memória e, como é próprio da natureza humana, nossa mente age, instintivamente, no sentido de esquecer  as coisas ruins e de preservar as experiências agradáveis. Para mim, os pães do seu Antônio constituem lembranças boas. Ora, se me deixaram saudades, por que não falar deles?

Brasília, 17 de abril de 2019.

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