Um pouco além do arquipélago, onde acho que Deus mora

Um pouco além do arquipélago, onde acho que Deus mora

Fernando Canto

Aqui estou olhando a barra azul do outro lado do rio como um cachorro sem osso e babento à espera do Gira Sol de luz que vem do Mar.

Vem, sim. Vem, sim. Ele que traz poesia em suas pétalas e o vento de um ventilador gigante-amarelado em suas palhetas, lá das bandas do Pau Cavado, ou para lá do arquipélago do Bailique, onde eu acho que Deus mora.

Aqui me sento e sinto o valsear incorpóreo de um barquinho de papel vindo de longe, da Casa dos Oiampis, talvez, de um rio de brumas, transportando minha angústia e o meu coração quase sem pulso.

Estou pleno de mim. Assim como a alvineira que acabou de destroçar suas velhas folhas para um verde jovem na frente da cidade. São cores que me acendem em alcalinas manhãs e ocres tardes. Sou, talvez, um compasso sem giro, um quadro inacabado no sfumatto verdadeiro do meu ser, na memória da eternidade interrompida que recorda e me projeta aos rastros de anjos num caminho em busca do Criador.

Ardo. Creio. Ando. Ando não. Vivo a imaginar que o interior do meu corpo diz que o lado externo pode me trazer uma boca aberta de palavras indizíveis e nunca articuladas.

Agora, este instantinho… Acho que o Céu fica um pouco mais além do Pau Cavado, mais além ainda das Ilhas que Bailam e seus resíduos no oceano. E ele e suas marés vêm pelos flancos, encontrar-me neste estado com suas ondas de lâminas quebradas, luzindo sob o Gira Sol ouro-lírico da linha do equador.

(Este poema em prosa dá nome ao novo livro de Fernando Canto, que será publicado ainda este ano. que pretendo publicar ainda este ano, se der tudo certo. São reflexões místicas, sobre a condição humana e o lugar em que o escritor vive)

 

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