Conto “O Homem que escutava Cornelius Cordew” de Romualdo Andrade

Conto “O Homem que escutava Cornelius Cordew” de Romualdo Andrade

O Conto do obidense Romualdo de Andrade Filho, intitulado “O Homem que escutava Cornelius Cordew”, foi vencedor do XVI Concurso Literário Mário Quintana, na modalidade nacional, realizado pelo Sintrajufe, no Rio Grande do Sul.

O Conto está publicado em um eBook, intitulado: “Não há isolamento para a plavra”, Antologia Literária da oficina de escrita ativa e da oficina de Poesia e Letra de Música 2019/2019. O Conto está na página 62 do livro, o qual estamos postando a seguir, para os apreciadores da boa escrita.

O HOMEM QUE ESCUTAVA CORNELIUS CORDEW

Romualdo de Andrade Filho*

Olho para o calendário preso na parede, arranco a folhinha esquecida de março já toda riscada, e um abril surge vago e fosco. Com um X, assinalo os primeiros dias gastos deste mês e digo para mim mesmo, em voz baixa: “abril será o mais longo dos meses”. Desanuvio o pensamento, vou ao fogão e preparo um colômbia bem forte. Sento na poltrona e estico as pernas; com a xícara fumegante em uma das mãos e, com a outra, como um maestro canhestro, conduzo e trauteio a música que vem do fim do corredor que ilumina minha alma escura e vazia como um clarão estival: o piano de Rzewski toca uma das faixas de We Sing for the Future, de Cornelius Cardew.

Novos sons têm surgido e outros, cessado nestes meses de confinamento: o ultrassom que inibe o Hermógenes, um velho e rabugento chihuahua do apartamento no térreo que agora esboça apenas um simulacro de latido; a viúva, do andar de baixo, que reclama do marido invisível que não faz a separação adequada do lixo e berra ao repreendê-lo: “Agnaldo, seu imprestável, já não lhe falei...”; a eterna lua-de-mel do casal do apartamento colado ao meu que agora não passa de um breve suspiro aliviado; o entra e sai dos entregadores de encomenda e de comida que se esgueiram pelo saguão do prédio; e o morador do fim do corredor, que escuta Cornelius Cardew.

De todos esses sons o piano de Rzewski é o único que me coloca em sintonia com a vida e faz com que meus dias de isolamento tenham alguma conexão com o mundo exterior: Cardew já me era conhecido desde os anos 70, quando em Londres, eu vagava pelos pubs baratos, sem nenhum penny e à míngua. Lembro que até cheguei a barganhar um LP da The Scratch Orchestra, autografado pelo próprio Cardew em troca de um prato de comida, numa época em que eu ralava e tentava ganhar algum trocado, tocando minha panflute na Portobello Road. Quase meio século após minhas andanças pela Ilha, ouvir o vanguardista vermelho ser tocado nas horas mais intensas como estas, aqui nesse cubículo que me acostumo aos poucos a chamar de lar, era a última coisa que eu poderia esperar da vida.

*

A primeira vez que o vi neste prédio foi numa tarde abafada e quente de um dia qualquer de fevereiro deste ano. Ambos esperávamos o elevador preso no 4º andar. Após chutar a porta, o elevador finalmente se desprende e chega ao térreo.

Ofereço-me com as sacolas de compra e pacotes que o homem carrega e, em sinal afirmativo, me agradece com um olhar longínquo. Aperto o botão do12º e pergunto para qual andar ele está indo. Com movimento de cabeça, entendo ser o mesmo piso que o meu. Desconsertado, esboço um sorriso dúbio por detrás da máscara. Subimos os níveis em pequenos solavancos, sem trocar nenhuma palavra. A porta do elevador se abre e, dos pacotes que o homem carrega, de um deles, um livro se desprende e cai.

Abaixo, pego-o, ajeito a capa amassada e deito-o sobre os pacotes que estão em seus braços. Ofereço-me para levar as sacolas restantes, que mantenho em minhas mãos, até o seu apartamento. O homem me agradece com leve menear de cabeça e um franzir de cenho amistosos. Vou em direção ao seu apartamento com ele à frente. O homem abre a porta e coloco as sacolas que tenho nas mãos sobre a mesa da sala.

Com um olhar perscrutador, invasivo e curioso, lanço uma rápida olhadela em direção ao aparador que decora o sóbrio apartamento. Sobre o móvel, uma pilha de LPs amontoados ao lado de um toca-discos hi-fi. É de lá que vem a música de Cardew, asseguro-me e me censuro logo em seguida. O homem me agradece e, em retribuição, não sei, me dá o livro que tem nas mãos. Diz que, assim que terminar, eu poderei passá-lo adiante, como alguém antes dele também o fizera. Despeço-me, e a porta se fecha atrás de mim: um som oco e surdo desfaz minha breve e rápida amizade.

*

Uma movimentação incomum quebra o silêncio deste andar: abro a porta devagar e por mim passa uma maca e nela, o corpo inerte do homem cujos braços balançam no descompasso de pernas apressadas e coreografadas de seus condutores. Reconheço-o. Para trás, fica o cheiro de éter, de álcool e de morte que invadem o corredor e me causam um certo tipo de náusea. Fecho a porta num gesto rápido e me recolho pensativo. Aquela foi a última vez que vi, numa quinta-feira quente de abril, o homem que escutava Cornelius Cardew. Lembro de nosso primeiro e derradeiro encontro. Levanto-me, vou até a estante e procuro na pilha de livros desordenados o Terra Devastada, de T.S. Eliot, que ele me dera. Encontro-o e vou ao fogão. Preparo meu café e, com uma mão na xícara fumegante e outra no livro, abro-o e leio os primeiros versos do poema:

O Enterro dos Mortos
Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.

Longos dias foram consumidos até que agosto anunciasse um novo ocupante para o apartamento do fim do corredor, o mesmo em que morou o homem que escutava Cornelius Cardew. Ruídos vindos de lá preenchem meu ouvido atento e ocioso: caixas que se abrem; a disposição provisória dos móveis; o ruído da furadeira; o miado do gato, interrompido pelo ultrassom do vizinho; o ranger da cama cujos parafusos ainda não estão bem apertados... Quando à noite, tudo isso cessa, ouço as primeiras notas de Stella by Starlight e o tilintar de taças.

Vou até o fogão e preparo um colômbia bem forte enquanto simulo, com polegar direito nos lábios e o dedo médio deprimido, o trompete de Miles Davis.

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* Romualdo de Andrade é obidense  formado em  Administração pela PUC-Campinas, cursa atualmente licenciatura em História da Universidade Mackenzie - SP. Vencedor também do Prêmio Flip de Literatura 2020 realizado na cidade de Paraty, Rio de Janeiro, com o  Conto “Terra Anfíbia”.

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