ARQUITETURA OBIDENSE: 2.2 O século XIX – A perda da liderança regional

ARQUITETURA OBIDENSE: 2.2 O século XIX – A perda da liderança regional

2.2 O século XIX – A perda da liderança regional

 No inicio do século XIX a cidade de Santarém consolida uma posição de liderança na região, recebendo sedes de atividades religiosas e também militares. Óbidos recebeu, no mesmo, período um comando militar, fato em comum em todas as vilas do Baixo Amazonas, porem a casa do conselho, onde deveriam reunir-se os edis, assim com a prisão, estavam em ruínas. Em 1823 um oficio da câmera junto à governativa de Belém fazia alusão à produção de cacau na vila, por cujos dízimos, pagos aos cofres nacionais, seria plenamente justificável a ajuda do governo para construção de prédios e serviços necessários.

Logo após a independência, a região viveu dias agitados e Óbidos mobilizou-se repetidas vezes para manter a ordem nos incidentes em que se confrontavam reinos e nativos. Este incidente, que se estenderam o desenvolvimento da vila, sem câmara, cadeia, escola e com a obra da nova matriz em andamento lento. Embora fossem feitos reparos na capela dos padres da Piedade, a nova igreja a ser erguida junto à praça, com dedicação a Santana, centralizaria os interesses e esforço da população. Apesar disso as obras tinham um pouco desenvolvimento, ora por falta de materiais, principalmente, por falta de mestres habilitados. Também a capela de Piedade deteriorava-se rapidamente e o vigário teria que se transferir para a capela do Desagravo, orago do Senhor do Bom Jesus, erguido no começo do século XIX. À falta de um mestre habilitado contratara - se “um curioso” que iniciaria os trabalhos, sendo-lhe fornecido o que necessitava para obra da igreja matriz. Aceitou-se, inclusive, que o material de construção viria da Europa.

Poder-se, então, deduzir que no começo do século havia dificuldade de mão-de-obra especializada e, também, escassez de matérias. Incidentes com administração local fizeram com que esse mestre se retirasse da cidade sem concluir as obras só em 1827, vencendo os percalços, a Matriz foi inaugurada.

Os viajantes estrangeiros, como Martius e Spix (1820), Bates (1850) e outros, ao visitarem a cidade na primeira metade do século XIX, descreviam uma povoação com bom movimento comercial e aspecto que refletia um panorama de progresso econômico.

Em 1829 a câmara tomou a medidas importantes para proteção urbanas e da área em torno da vila. Para o entorno tomaram-se providencias contra quem ateasse fogo aos campos e beiras de lagos, no entendimento que isso prejudicava a caça e a produção agrícola. Foi proibido o fechamento por particulares, de igarapés. Na vila, porem, abriam-se buracos na rua para obter terras para construções, levantavam-se buracos no centro – ás vez só coberturas inacabadas - retirava-se madeira das cercas para utilizar na cozinha, enfim, tomavam-se atitudes cujos reflexos sobre a aparência da vila deveriam ser dosa piores, situação essa que a câmara procurava melhorar atreves da legislação.

Em 1846 começou a funcionar um colégio para educação e instrução de meninos pobres, com o nome de colégio S. Luis Gonzaga e que foi formalmente instalado em 1847, a passagem de D. José Afonso de Morais Torres, bispo do Grão-Pará. O Bispo descreveu sua passagem pela cidade especialmente impressionado com os cacauais próximos a ela e sugerido ao imperador que entregasse ao colégio imperial  “que existe na margem oposta, feita pelos índios, do qual a nação se apoderou logo que aqueles o abandonaram: não pode ter aplicação mais justa do que sustentar meninos pobres que ali se educam tirando da miséria e ociosidade.”, comentou, também, o estado da igreja Matriz: “dedicada a Sra. Sant´Ana, esta hoje em deplorável estado com duas parede laterais que são de pedra a desabar para fora e com o teto todo suspenso, e apenas seguro por esteio que se estendem desde a porta principal ate o arco cruzeiro, e a cumeeira toda cellada, é pena e perda deste templo porque é um dos melhores que possui a diocese, tem cinco altares construídos com gosto, e ricamente adornados, boas imagens, bons parementos.”

Quanto à vila, dizia o Bispo: “é uma das vilas que vai em crescimento todos os dias, ornada de boas casas, com comércio ativo e lugares abundantes dos gêneros de primeira necessidade: seus habitantes cultivavam em abundancia o cacau, principal gênero de seu comércio...”.

No ano seguinte a visita do Bispo, 1848, se refez o forte e foi inaugurada uma colônia militar, ambos projetos do Major Marcos Pereira Sales, capitão do Imperial Corpo de Engenheiros. A colônia era composta por224colonos e 38 portugueses, em 1864 foi extinta sem ter produzido nada e logo se transformaria em ruínas.

No trabalho de Ferreira Pena “De Óbidos a Faro”, são dadas informações detalhadas e precisas sobre todos os aspectos de Óbidos, cidade há apenas 14 anos. Ao descrever o sitio urbano dizia Pena: “...começa a aparecer grande número de casas que branquejam ao longe por entre a ramagem das mangueiras, laranjeiras e outras arvores frutíferas que na Província formam o mais belo ornato das povoações. Essas casas são as da cidade de Óbidos que se estende desde a margem do rio Amazonas, por um terreno bastante inclinado, ate quase ao alto de um pequeno monte que a domina. O primeiro edifício que se distingue de longe, é o forte construído sobre uma espécie de promontório que avançado em semi-círculo dentro do rio, dá logar do lado oriental, a uma pequena enceada ou remanso que é o único porto da cidade...O aspecto da cidade é, como já ficou indicado, aprasível e muito pictoresco.”                                                    

 Ao falar da vegetação, provavelmente Pena está se referindo aos quintais, já que, a exemplo das cidades portuguesas, inclusive a qual lhe da o nome, a fortaleza de Óbidos em Portugal, a cidade não possui nenhuma arborização nas suas ruas centrais. A estrutura urbana foi também escrita por Pena:

“Óbidos compõe-se 151 prédios habitadas estando 2 em construção e 6 ruínas; são dispostos em duas praças e nove ruas que se cortam em ângulo recto quasi todas, sendo em geral estreitas e não calçadas. Seus edifícios públicos são poucos e constam dos seguintes: A igreja Matriz, inaugurada em 1827, tendo por orago Santa Anna; é um bom templo, embora construído sem gosto. Acha-se em bom estado, e o vigário tem conservado com decência e zelo os seus ornamento e ofaias. A capella do Bom Jesus, no alto da Praça do mesmo nome não esta acabada e não tarda a desabar. Chegou a quase concluir-se tendo sido feito a custa de uma subscrição dos moradores dos ano de 1855 em cumprimento de ocasiões de devastação dos cabanos. Informaram-me que já esteve coberta, mas que tiraram-lhe todas as telhas e madeiras que foi aplicada em proveito particular, um cemitério é um campo...não está cercado. A casa câmara e a cadeia não tem importância alguma. A primeira conserva-se, a segunda não oferece segurança, e nem mesmo é uma prisão com acomodação conveniente.[...] A população da cidade foi por mim avaliada em 1120 habitantes; mas, segundo o arrolamento posteriormente feito pelo coletor de rendas províncias em virtude da lei n° 520, o número de habitantes desceu a 965 do modo seguinte: Masculino 436; Brasileiro 897;Livres 703; Femininos 529; Estrangeiros 68; Escravos 262”

Óbidos foi um dos municípios paraenses que abrigou significativo número de escravo e nas regiões próximos se estabelecerem muitos quilombos favorecidos pela grande extensão do município. Essa característica dificultava, à época, até mesmo a estimativa de população que, segundo Pena seria de 10.000 habitantes, mas pólos números oficiais de apenas 6.000. A instrução pública da cidade era restrita a duas escolas “de primeiras letras”, uma feminina com 36 alunas, uma masculina com 69. Havia também uma escola particular. A escola primaria de meninos funcionava, ainda pelo relato de Pena, no que fora o colégio de S. Luiz de Gonzaga, considerado por aquele autor com uma espécie de seminário, completando o comentário com uma frase desconfiada: “este útil estabelecimento, por motivos que não me souberam ou quiseram dizer, deixou de existir”

Pela área urbana estavam distribuído estabelecimentos comercias, oficinas e pequenas indústrias: “no interior da cidade existem as seguintes casas de comercio: 2 lojas de fazendas, 25 ditas e tavernas conjuntas, 6 tavenas que vendem frutos e 2 drogarias. Tem as seguintes oficinas e casas indústrias:3 padarias, 2 açougues, 1 quitanda, 1 bilhar, 1 loja de sapateiro, 1 dita de ourives, 6 ditas de alfaiates, 2 ditas de ferreiro, 1 dita de marceneiro, 1 dita tamanqueiro e 1 olaria. Fora da cidade, há 14 casas de comercio em que se vende conjuntamente secos e molhados, comestíveis, jóias, etc.”

Relata ainda Pena a tipografia existente em Óbidos tentara editar um jornal “industrial”, em 1867-68, porém, o mesmo desaparecera por falta de assinantes.               

Quanto à economia do município, estava fundamentada na cultura do cacau e na criação de gado, situação que se mantinha desde o século XVIII. A agricultura não se limitava ao cacau, mas continha boa produção de café, tabacos (o de melhor qualidade era provenientes dos mocambos do rio trombetas), algodão em pequena quantidade de outros produtos, entre eles o guaraná. Nesta época de relata de Ferreira Pena, não existia seringas nos municípios; os produtos extrativos eram, porém, fonte importante de renda, o porto local era ativo e movimentado e Óbidos era a sede da comarca desde 1867, abrangendo o município e também Faro.

Nos dados arrolados por Pena, chama atenção o numero de militares estabelecido no município. A soma do pessoal ativo e de reserva seria 1505, ultrapassando o de residentes, estimado pelo coletor de rendas em 965 habitantes.

1. Arquitetura Obidense - Apresentação

2.1 A implantação

2.2 O século XIX – A perda da liderança regional

2.3. Óbidos na visão do Francês Le Cointe

Do Livro Cadernos de Arquitetura - Óbidos
Profa. Jussara Derenji