ARQUITETURA OBIDENSE: 2.3. Óbidos na visão do Francês Le Cointe

ARQUITETURA OBIDENSE: 2.3. Óbidos na visão do Francês Le Cointe

2.3 Óbidos na visão do Francês Le Cointe

Já no início do século XX, Óbidos teve como residente o agrimensor francês Paul Le Cointe, autor do livro L’ Amazonie Brasilienne, publicado em 1920, uma das fontes mais precisa de dados sobre a cidade ainda que nem sempre lisonjeiros. Depois de tecer comentários sobre a localização e o bom clima da cidade, relata a dificuldade em encontrar um alojamento confortável pela falta de hotel e a escassez de gêneros alimentícios. Pela localização do porto e por tá em região de riqueza naturais, Óbidos deveria tornar-se o centro comercial de maior importância entre Belém e Manaus, porém o próprio Le Cointe diz que a cidade se deixara a sobrepujar por Santarém. A evolução urbana fora muito pequena, Le Cointe registra 1.200 habitantes em 170 casas no ano de 1872; em 1879, 1.800 habitantes em 225 casas e, em 1918, 2500 pessoas. Quanto a cultura, a situação continuava precária. Em 1857, circulara um hebdomadário, o “Sentinela Obidense”, durando um pouco mais de um ano, o “Indústria”, (citado por Pena) durara menos ainda. Em 1894, começara a publicação irregular de mais um jornal, o “Cidade de Óbidos”, não alcançado 100 exemplares. Le Cointe chama atenção para o fato de que outras pequenas cidades da região, com Alenquer ou Itacoatiara, conseguiam manter jornais circulando. Em 1873, um pequeno teatro fora construído, atreves de subscrições populares, mas desaparecera completamente no inicio do século XX. Havia existido, também  um Clube Literário, uma Biblioteca, uma Sociedade Filantrópica, um tiro ao alvo e preparação militar, mas  “de toutes ces tentatives interessantes de progrés il ne reste rien, pás même le materiel dont quelques particuliers ont tout simplement heritè.”, comentou Le Cointe.

A descrição que faz do aspecto das ruas mostra um quadro lastimável: “se algumas ruas foram grosseiramente pavimentadas por outro lado o maior número delas, assim como todas as praças, se encontra, invadidas pelo mato, repletas de imundice e não devem sua animação senão aos cães errantes que ai desenvolvem homéricos combates, assim como aos animais domésticos de todas as espécies, cavalos, bois, asno, carneiros, porcos e perus que ai procuram tranqüilamente sua alimentação cotidiana.”

As obras publicas não tinham melhor estado,  o muro de sustentação para rampa de acesso a cidade havia ruído por falta de manutenção, o cais se demolia a cada ano por ação das águas. São citadas as igrejas Matriz e a Capela do Bom Jesus, além de outras, construída em honra de S. Benedito “le patron dos nègres, a èté démolie recentemntement par sés discipules inconstants.” Dizia Le Cointe.

Desta capela demolida não se tem nenhuma outra referencia. No relato de Le Cointe aparece a referencia a amendoeiras, para arborização de ruas, porém com o corte decretado por ordem de “um mairie intelligent”. Pela mesma “inteligência” ruas e praças eram totalmente despidas de vegetação no inicio do século. Cabe aqui uma ressalva: pela pouca largura das ruas, o número delas que podem ter sido arborizadas não deveria ter sido muito grande. É lamentável porem tenha ocorrido o corte do pouco que existia já que, hoje em dia, Óbidos não tem nenhuma arborização no centro.

Quantos as colônias agrícolas, Le Cointe cita a estabelecida em 1854, que diz ser de imigrantes portugueses. Cita também uma colônia de espanhóis estabelecida em 1898, 10 Km ao norte da cidade, próximo ao igarapé de Curuçambá e que também desapareceu antes de 1918. As razões do fracasso da colônia foram, na primeira, o descaso dos soldados, temerosos de serem removidos para outros locais; em ambas, a falta de orientação para o cultivo na região. Na segunda colônia em menos de um ano de existência os colonos já tinham de espalhado pelas fazendas vizinhas, dizimadas pelas doenças e pela fome, pois, os viveres, mandados para a sua subsistência inicial, foram vendidos pela administração local. Em 1899, não havia nenhum colono na região e todo o investimento, 200 contos 155.000 francos, se perderam.

Desde 1913, a cidade tinha água canalizada, porém, em 1918, Le Cointe reclama da instalação defeituosa e deficiente e da distribuição, sem decantar, sem filtrar com uma negligente manutenção e distribuição. A iluminação pública se limitava a raros e enfumaçados lampiões a óleo. O mercado era regularmente suprido por carne fresca, mas o peixe faltava (!), assim como verduras e legumes. Não existia sistema de higiene, os mosquitos se tornavam cada vez mais numeroso, os mendigos e leprosos circulavam livremente.        

Os comentários de Le Cointe sobre a administração municipal são muito pessimistas e atribuem à sua incapacidade e poucos escrúpulos a decadência do município. O agrimensor francês, que se casou e residiu muitos anos na cidade, tentou auxiliar as melhorias necessárias fundando uma companhia, com sede em Paris, para a exploração de cacau, e também, colaborando com a própria administração elaborando, por exemplo, uma proposta datada de março de 1897, de regulamento para a venda e aforamento do município de Óbidos.

Neste período, fim do século passado, muitos barcos faziam escala em Óbidos, a cidade exportava cacau, castanha, peixe seco e gado. As especialidades em doces regionais foram notadas por Le Cointe que cita doces de tamarindo, “artisticamente decorado”, licores de taperebá, farinha de banana, chocolate etc. Não era a cidade, porém, autorizada a exportar diretamente para o estrangeiro, ainda que dotada de alfândega.

Na década de 20 deste século, Óbidos recebeu alguns melhoramentos, dentre eles o Mercado Público (1926) projeto de José Sidrin, um hospital, o da Santa Casa de Misericórdia (1922), Matadouro Municipal (1924), Posto de Saúde, Profilático, e Usina Elétrica (1929).

A cidade se engajou nos movimentos políticos que agitaram o país em 1924 e 1932, afirmando o que vários autores chamam de “vocação militar” do município. Desde 1930 é integrada apenas pela sede, mas conservada a área de 28.408 Km². Sua população, em 1950 era de 16.083 hab., com 3.419 estabelecidos na área central. Pelo recenseamento geral do Brasil, de 1980, o município na área urbana contava com 17.117 habitantes.

O exame de seus dados censitários demonstra um aumento pequeno em termos populacionais. Deve-se, porém, considerar que a economia do município foi sempre baseada em produtos agrícolas, extrativos e de pecuária, e que houve em expressivo desenvolvimento de povoados no seu entorno: Rio Branco, Frexal, São José e outros, assim o pouco desenvolvimento do núcleo centra não deve ser considerado como estagnação econômica.

O pouco dinamismo verificado no núcleo central, por outro lado, preservou a fisionomia peculiar à cidade. Manteve-se a volumetria do século XVIII e no início do século XIX. As modificações já no fim deste século, se fizeram sentir, predominante, na área portuária, com o surgimento de sobrados ecléticos destinados ao uso comercial. Alguns desses prédios são exemplares cuidadosos de um ecletismo pautado por construtores italianos, parte da presença italiana na cidade nos anos 10.

Em períodos mais recentes a cidade foi notada de prédios para serviços estaduais ou federais: bancos, correios, etc. que não respeitaram a tipologia existente. Também algumas tentativas esparsas de construir prédios de dois andares têm ocorrido em torno da praça principal. A modificação que trouxe mais prejuízo a cidade foi a construção de conjunto de lojas junto ao cais, obstruindo o visual dos sobrados do inicio do século.

O panorama da área central pouco deve deferir daquele visto por Le Coitie em 1918. Sabe-se que muitas indústrias desapareceram ou se modificaram nos últimos anos em que a indústria de doces, orgulho da cidade, se extingue rapidamente. Óbidos ainda tem a dificuldade de abastecimento e de alojamento, porém as ruas estreitas estão calçadas e não se nota abandono ou pobreza na área urbana, o que, sem duvida é um dado positivo ao seu atual estágio de desenvolvimento. 

1. Arquitetura Obidense - Introdução

2.2 O século XIX – A perda da liderança regional

1. Arquitetura Obidense - Apresentação

2.1 A implantação

2.2 O século XIX – A perda da liderança regional

2.3. Óbidos na visão do Francês Le Cointe

Do livro Caderno de Arquitetura - Óbidos
Profa. Jussara Derenji