ÓBIDOS: Um museu a céu aberto

ÓBIDOS: Um museu a céu aberto

Publicamos em nossa Fanpage a foto acima, autoria de João Canto, e fomos agraciados com esse belo texto de Walter Pinto, sobre nossa queria Óbidos, fonte de pesquisa de seu  Livro “1932: A Revolução Constitucionalista no Baixo Amazonas”, que trata do movimento armado de reação ao tenentismo,  materializado numa revolta de civis e militares, liderada por sargentos de uma unidade do Exército na cidade de Óbidos. Veja o texto a seguir:

ÓBIDOS: Um museu a céu aberto

Walter Pinto

João Canto postou em seu perfil uma das mais bonitas imagens da fachada de Óbidos, em que a cidade antiga aparece inteira, o casario elevando-se na colina.

Nunca tinha colocado os pés em Óbidos até começar a pesquisa para o mestrado sobre a revolta constitucionalista de 1932 na cidade. Cheguei no rebatizado Cisne Branco, que antes fora Sobral Santos II, de triste memória. Mas a tragédia acaba aqui, porque em Óbidos tudo foi maravilhoso.

Sou muito grato a Óbidos por guardar sua memória, valorizar a história. A cidade é como um museu a céu aberto. As ruas, as casas, os bens públicos estão lá, preservados.

Para quem estuda uma revolução que se passa numa cidade é uma experiência extraordinária poder caminhar pelas ruas por onde transcorreu a história. Caminhar com os personagens reais da trama, acompanhar as descidas e subidas dos soldados e oficiais pelas ruas íngremes, quase poder auscultar o sentimento de temor dentro das casas, pensar no medo da morte nos lares dos que não tiveram escolha.

Ver suas casas, ver as grandes ladeiras de Óbidos, o mercado ainda novo, imaginar os rebelados no porto requisitando mercadorias das lojas, pensar nos canhões sendo levados para bordo dos navios tomados. Não há nada mais gratificante para um pesquisador do que conhecer o cenário da trama da sua história. Óbidos deu-me isso. Faz parte de mim, da minha história. Fui muito bem recebido pelas pessoas que entrevistei e pelos funcionários dos órgãos que consultei.

O Arquivo da Prefeitura de Óbidos tem uma grande e rica documentação. À época carecia de mais espaço. O Museu Integrado é um cento de memória como poucas cidades do Pará possuem. É indispensável digitalizar toda aquela documentação.

A Biblioteca pública bem estruturada, dispõe de bom acervo e está instalada no prédio mais simbólico de Óbidos, o antigo quartel do Exército, este mesmo sublevado em 1932 sob o comando de Pompa, por ordem do general Klinger. Na biblioteca deixei um CD com arquivos digitalizados dos inquéritos sobre a Revolução Constitucionalista. Estão lá todos os depoimentos colhidos em quatro inquéritos. São os atores falando de suas ações, comerciantes, tenentes, sargentos, cabos, soldados, fazendeiros, servidores públicos, profissionais liberais. Mais que isso, nos inquéritos estão todas as ordens do dia, as promoções, os alistamentos a força, as contribuições compulsórias no comércio, as mensagens telegráficas trocadas pelos rebeldes, os manifestos de Pompa, enfim, a revolução em ação.

O livro de Walter Pinto de Oliveira, “1932: A revolução Constitucionalista no Baixo Amazonas”  é uma importante contribuição para o conhecimento a cerca do período republicano no Pará, mais especificamente em Óbidos. O enredo da história joga luz notadamente sobre as experiências de dois grupos de revolucionários que se opuseram – os de 1930 e os de 1932 – no interior da primeira interventoria de Magalhães  Barata.

Pois bem, encontrei esses inquéritos no Comando Militar do Exército, no Rio de Janeiro. Nunca tinham sido consultados. A caixa do Antigo Ministério da Guerra que os armazenava informava "não higienizados" e permanecia lacrada. Fotografei tudo. Era a minha principal documentação, há muito procurada em vários lugares do Brasil. Foi uma emoção muito grande encontrar os quatro inquéritos juntos da revolta de 1932. Emoção tão grande quanto a que senti, no início da pesquisa, ao descobrir documentos da prefeitura de Óbidos do tempo de Pompa no Museu Integrado desta magnífica e acolhedora cidade.

Obrigado a todos que me ajudaram. De minha parte retribui, creio, da maneira que me competia: escrevi um livro sobre a revolta. Trouxe a lume fatos, acontecimentos, memória, tudo extraído de documentação. Não dei um passo se não apoiado nos fatos. Deixei exemplares do meu livro na Biblioteca e no Museu Integrado. Que sirvam para inspirar outros estudos sobre a nossa querida Óbidos.

Por fim, agradeço a todos os obidenses e desejo um Feliz 2021. Na primeira oportunidade voltarei à cidade.

Abraços,

Walter Pinto

 

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