O VELHO DA PRAÇA

O VELHO DA PRAÇA

Nilza Verônica Amaral.

Velhos tornam-se invisíveis aos olhos humanos, como se a vida lhes cobrisse com o Manto da Morte usado no imaginário de Hery Potter. Não sei se pela correria diária ou por não suportarmos nos enxergar neles, o fato é que nunca (ou quase nunca) deles nos apercebemos. Mas aquele velho era diferente e nos chamou a atenção.

Numa manhã de domingo, passeando com minha irmã e nossos filhos na Praça da República, em Belém, nos deparamos com ele: um homem velho e cego. Completamente cego! E isso o tornava ainda mais invisível aos olhos dos transeuntes porque sua cegueira era nossa também.

Seu Zé (vou chamá-lo assim), idade ignorada, sorriso sincero e com histórias de um nordeste saudoso que ficou somente nas lembranças, passa horas das manhãs de domingo sentado num banquinho e chama a atenção porque usa uma lona em forma de camiseta pedindo uma “ajuda”. Curvado pelo peso dos anos sobre sua bengala tosca ele pede, com as mãos estendidas:

- Uma ajuda pelo amor de Deus!

Mas no burburinho da praça poucos o ouvem!

Para minha irmã uma ajuda financeira não seria suficiente, então paramos todos para conversar e ouvir um pouco das suas histórias; não sem antes entregá-lo uma merenda (como ele mesmo pediu): um copo de suco e uma fatia de bolo. Percebi o olhar indagador da minha filha de 10 anos ao ir, na companhia da prima mais velha, comprar as guloseimas escolhidas com capricho.

Recordei-me que há muitos anos atrás isso aconteceu comigo e com meus irmãos, quando testemunhamos exemplos de generosidade dados por nossos pais; agora a história se repetia e tínhamos a chance de mostrar o que aprendemos. Foi naquela troca de olhar com a minha filha que compreendi: aquele momento fazia parte do pacote de aulas práticas que os pais ministram aos seus filhos. Somente para ajudar na compreensão daquele ato o conceito de generosidade vem do latim generositas e significa “partilhar sem qualquer interesse”. Entenda-se partilhar não somente bens materiais ou ajuda financeira, mas partilhar principalmente o tempo que fará, na maioria das vezes, diferença no bem-estar das pessoas.

Sei que nunca seremos bons o suficiente, mas nossos exemplos tem que nos superar; temos que desacelerar nossas vidas para primeiro enxergar e depois ouvir o que o “velho da praça” tem para nos contar. Assim mesmo como minha irmã fez: com muita paciência. Porque, acredito, precisamos desses encontros para nosso crescimento pessoal. E nossos filhos também!

Se olharmos por aí constataremos que existem muitos “velhos da praça”; estão em muitos lugares e são muitos. E nós, que já aprendemos sobre generosidade... Bem, nós não estamos em todo lugar (às vezes não estamos nem aí!) e somos poucos, muito poucos, mas poderemos fazer a diferença se estivermos predispostos porque, generosidade, se aprende fazendo.

Publicada originalmente, em 3 de fevereiro de 2015.

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