Tragicomédia Urbana

Tragicomédia Urbana

Haroldo Figueira

Na vida, passa-se por algumas situações que poderiam ser conceituadas de cômicas se não fossem trágicas. A propósito, algumas semanas atrás, em texto que transitou via WhatsApp,  tomei conhecimento de uma delas. Na publicação, a mensageira narrou as circunstâncias de um insólito assalto de que foi alvo ao tomar um ônibus para ir trabalhar.

O caso se deu em Natal. E reflete, infelizmente, uma triste realidade que já virou rotina no cotidiano dos centros urbanos grandes e médios de todo o país. Como um câncer em processo de metástase, a ação da bandidagem parece espalhar-se pelo organismo social, deixando a população amedrontada e com a sensação de que o Estado perdeu a capacidade de proporcionar segurança aos seus cidadãos.

Resido na capital potiguar há 39 anos. Durante muito tempo a urbe natalense ostentou a justa reputação de tratar-se de um lugar aprazível, por conta de suas belas praias de águas cálidas, dos seus dias ensolarados quase o ano inteiro, da brisa marítima suave que a refresca nos dias de calor, da cordialidade e hospitalidade de seu povo e, também, por transmitir aos moradores e visitantes uma prazerosa percepção de paz e tranquilidade.

Nada mudou no tocante aos encantos naturais da Cidade do Sol, mas a impressão de sossego de antes deixou de existir. Hoje a criminalidade impera em seu território a ponto de alçá-la, estatisticamente, à nada louvável posição de uma das mais violentas metrópoles brasileiras. E as ações delituosas não se dão apenas por iniciativa de bandidos em liberdade. Elas acontecem, também, a partir de comandos emanados de dentro dos presídios. Aliás, recentemente, todo o país tomou conhecimento, pelo noticiário da mídia, dos dias de caos que Natal viveu, provocados por chefões do crime que se encontram encarcerados. A violência se disseminou a tal ponto que o governo estadual precisou pedir o reforço de tropas federais para restabelecer a ordem pública.

Retornemos, todavia, ao cerne do assunto. Ao tomar o transporte coletivo, a narradora percebeu que um rapaz, bem apessoado na sua avaliação, embarcou junto. Mal o ônibus saiu da estação, o jovem sacou de um revólver e, com palavras ríspidas, anunciou que se tratava de um assalto. Apontou a arma para o motorista e mandou que o veículo seguisse viagem ignorando os pontos de parada do trajeto. Ameaçou que não hesitaria em atirar se alguém tentasse reagir.

De repente, pareceu acalmar-se. Dizendo chamar-se supostamente Fulano, informou aos passageiros que era o dia do seu aniversário e que desejava comemorá-lo com eles. Determinou, então, que todos cantassem “Parabéns a Você” em sua homenagem, acompanhado das palmas de praxe. Como o pessoal momentaneamente relutasse em obedecer, repetiu a ameaça de que faria uso da arma e a entoação saiu de acordo com a encomenda.

Em seguida, após comentar que gostou, lançou nova exigência. Queria agora ouvir o bordão “É big, é big, é big´!, E hora, é hora, é hora! Ra-tim-bum! Fulano, Fulano!”. Desta vez não houve titubeação. Temeroso diante da possibilidade de o assaltante enfurecer-se e atirar, o coral improvisado pôs-se imediatamente a cantar.

Por fim, carregando mais no tom irônico, o delinquente anunciou ter chegado o momento de os passageiros presenteá-lo. Desvencilhou-se então de uma mochila que trazia nas costas, abriu-a e estendeu-a para que nela depositassem celulares, dinheiro, joias e tudo o mais que de valor estivessem carregando. Amedrontadas com a presença do revólver, nenhuma delas se arriscou a desobedecer.

Enquanto isso, do lado de fora, as pessoas que aguardavam nas estações a parada do meio de transporte estranhavam ao vê-lo passar direto, ignorando-as. Não lhes ocorria, porém, tomar qualquer atitude, confusas que ficaram diante do ambiente de cantoria e de comemoração que visualizavam através das janelas.

Enfim o pesadelo terminou sem que ninguém saísse ferido, felizmente. Ao chegar a um local ermo da periferia, o marginal deu ordem para o motorista freasse a condução. Desembarcou e, aboletando-se na garupa de uma motocicleta dirigida por um comparsa que o esperava, fugiu tomando rumo desconhecido, levando consigo o produto do saque.

Em sua postagem, a autora confessou que, nessa ocasião, ainda sob efeito do nervosismo, sentimentos contraditórios a invadiram por dentro. Não sabia se chorava ou se ria. O choro em consequência do susto e do saque de seus pertences – alegou que perdeu R$ 1.000,00 em dinheiro, dois celulares e os cartões de crédito. O riso por essa coisa estapafúrdia de ter de fazer festa para quem acabara de roubá-la. Coisa maluca, para lá de surreal.

Logo, porém, a estupefação inicial deu lugar à indignação e à raiva. Com razão. Não bastassem os constrangimentos pelos quais precisou se submeter sem nada poder fazer, pior ainda foi suportar a prepotência e o escárnio de um ladrão abusado a tirar sarro das caras de suas vítimas, com ar de quem estava convicto da impunidade. Inacreditável.

 

Natal, 24 de agosto de 2016

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