A utopia do desenvolvimento sustentável, um elemento do macro sistema em nossos dias

A utopia do desenvolvimento sustentável, um elemento do macro sistema em nossos dias

Délio Aquino*.

O avanço da indústria maquinofatureira a partir do século XVIII na Europa, fundamentada na ciência cartesiana, aumentou a necessidade do uso exacerbado de matérias primas, renováveis e não renováveis para uma produção em escala planetária, assim como intensificou a utilização de um arsenal de produtos químicos, consequentemente o rejeito desequilibrado de diversos tipos de resíduos; produzindo uma violenta agressão ao meio ambiente. Contudo, promoveu o crescimento acelerado da população mundial e logicamente, a necessidade cada vez maior de consumo, seja necessário, seja supérfluo que motivaram a formação de resistências e de movimentos favoráveis à conservação da natureza que são evidenciados em eventos mundiais como a Conferência de Estocolmo 1972, Protocolo de Montreal 1987, a criação do Fundo global para o Meio Ambiente em 1991, pelo Banco Mundial; a ECO92 no Rio de Janeiro, O Protocolo de Quioto em 1997, a Rio +20 em 2012, entre outros.

Esses movimentos objetivam forjar acordos e estabelecer direitos ambientais ocasionando mudanças nas mentalidades das sociedades da Terra e nas constituições de vários países como, por exemplo, o Artigo 225 da Constituição Brasileira de 1988 que em sua essência coaduna com os chamados movimentos ambientalistas, hoje ligados a ideia de um conhecimento biocentrista e que entre outras manifestações forjou a utopia nomeada como Desenvolvimento Sustentável. Esta entusiasta utopia impulsiona muitas instituições e comunidades humanas para a prática de novas ações proativas que buscam compatibilizar a produção de riquezas necessárias ao homem com a qualidade positiva do meio ambiente, assegurar a conservação da biodiversidade da Terra, incluindo naturalmente as sociedades humanas, sendo, nesse contexto, todos os seres humanos elementos naturais e transformadores do planeta, que, em um sonhado desenvolvimento sustentável, produziriam as riquezas necessárias para a humanidade sem causar drásticas mudanças provocas pelas ações antrópicas.

A realidade, no entanto, está distante deste utópico Desenvolvimento Sustentável, ao contrário, o sistema capitalista detentor da grande maioria das riquezas do planeta, possui o controle das tecnologias mais avançadas criadas pelo homem, além de controlar a Política de Estado dos países mais poderosos e de suas colônias em todos os continentes. A produção científica e seus conceitos teóricos metodológicos, como por exemplo, A Teoria de Sistemas Complexos, possibilita uma visão bem mais explicativa deste momento histórico. Vejamos exemplos bem próximos da nossa realidade, que foram e são executados depois da promulgação da Constituição Brasileira de 1988 e o seu Artigo 225: As Florestas Nacionais - citando como exemplo de dimensão microscópica a Floresta Nacional do Tapajós. Nesse espaço habitam comunidades que teoricamente interagem com a natureza de forma sustentável, forçados em última instância pelas leis ambientais em vigor. Porém a Amazônia, dimensão mesoscópica; na geopolítica capitalista do planeta, um dos últimos espaços ricos em recursos naturais, está profundamente controlada pela mais poderosa burguesia mundial, que domina entre outras coisas, o sistema bancário financista, que não respeita fronteiras nacionais nem os mais equipados e dinâmicos sistemas bélicos, que também se apropria dos Produtos Internos Brutos da maioria dos países e que influencia e transforma em “fantoches” os governos tanto das nações colonizadoras quanto das nações colonizadas, portanto detendo o poder hegemônico no espaço macroscópico.

Neste espaço macroscópico, ainda estão mais de sete bilhões de seres humanos, entre estes, a minoria que sonha com a possibilidade de um Desenvolvimento Sustentável. Em contrapartida são milhões de pessoas sem trabalho, água, alimento, moradia, educação, saúde; milhões de refugiados, mas todos, logicamente sonhando em consumir conforme a cultura capitalista legitimada por praticamente todos nós, bilhões de humanos. Assim sendo, o sistema capitalista totalmente insustentável em relação aos limitados recursos naturais do planeta, vem se sustentando ao longo de séculos, utilizando estratégias que permitem a sua constante metamorfose, que se supera a cada crise; atualmente utilizando inclusive, a propaganda de “produtos sustentáveis”, para garantir mais esse espaço no mercado. O resultado desta cultura além de milhões de desempregados, sedentos, famintos, sem terras, refugiados, etc; proliferam áreas cada vez maiores do planeta que estão sendo devastadas. Verifica-se a poluição das águas, dos solos e do ar, que atingem todos, todavia, muito mais violento é o impacto contra os trabalhadores e os pobres em geral.

As iniciativas dos que praticam e anunciam a utopia do Desenvolvimento Sustentável estão sendo totalmente derrotadas? No meu ponto de vista não! Penso que sem essas resistências, tudo estaria bem pior. Sem as leis ambientais e por consequência sem as áreas protegidas, os impactos seriam bem mais abrangentes. Isso é Desenvolvimento Sustentável? Não! Essas resistências são ações bem-intencionadas, no entanto servem somente para desacelerar o brutal impacto que produzimos legitimando as práticas e os conceitos de vida capitalista-burguesa. Devemos interromper a utopia do Desenvolvimento Sustentável? Não! É fundamental desenvolvermos uma educação que atinja todos os bilhões de seres humanos e que a partir dessa educação possamos sentir e pensar outro tipo de conhecimento que não seja o da cultura capitalista-burguesa. Que evidência permite verificar essa possibilidade de outra cultura que não seja a cultura capitalista-burguesa? A cultura de milhões de pessoas que povoavam a América Pré-colombiana e que habitaram o espaço ao qual atualmente nomeamos como América do Norte, Central e do Sul; que viveram de forma sustentável nesses territórios por milhares de anos.

O que mais me entusiasma, porém, é que em minha prática cotidiana tenho o costume de cultivar algumas espécies vegetais e as vejo, em vasos ou diretamente no solo, brotarem, crescerem, florirem e produzirem seus frutos. Vejo também notícias de pessoas, em vários lugares do planeta, muito mais instrumentalizadas, desenvolvendo pomares produtivos até em regiões desérticas. Os mais ou menos sete bilhões de seres humanos ainda possuem a dádiva das sementes brotarem, mesmo que sejam evidentes os impactos profundos, na dimensão do planeta que necessitamos para o bem viver, temos o milagre das águas, o prazer imensurável do amor, o carinho inconfundível das crianças e a possibilidade de um refinamento espiritual e o aprimoramento da civilidade. Tudo o que restou da combalida biodiversidade da Terra, é suficiente para construirmos florestas culturais, pois as florestas naturais, não serão mais vistas! O Tucunduba jamais será o mesmo, não obstante, algumas de suas fontes ainda resistem e o Rio Guamá mata gentilmente a sede de muitas pessoas na nossa querida Belém do Grão Pará.

*Délio Reis Matos de Aquino é obidense, filho das grandes várzeas do Rio Amazonas. Graduado em história pela UFPA, concluinte de especialização em Educação Ambiental pelo Núcleo de Meio Ambiente da UFPA (NUMA), desde 1996 trabalha como Professor de História e Estudos Amazônicos nas redes de ensino público e privado na cidade de Belém. Escreve textos em versos, é letrista e compositor; participou de vários livros e CDs e é autor do livro Puxirum da Terra publicado em 2014.

Foto enviada pelo Autor.

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