Óbidos registra surto de doença de Chagas na zona rural e prefeitura mobiliza equipes de saúde para ações de combate

Óbidos registra surto de doença de Chagas na zona rural e prefeitura mobiliza equipes de saúde para ações de combate

Surto foi ocasionado por consumo de vinho de patauá; produção foi suspensa e moradores expostos seguem monitorados pela Secretaria de Saúde.

A Secretaria Municipal de Saúde de Óbidos, por meio do Departamento de Vigilância em Saúde, confirmou na sexta-feira (7) a ocorrência de um surto de doença de Chagas na zona rural do município, associado ao consumo de vinho de patauá artesanal. O registro do surto acendeu o alerta epidemiológico, uma vez que há mais de 20 anos não eram notificados casos graves da enfermidade em Óbidos.

A confirmação mobilizou uma ação imediata da Vigilância Sanitária Municipal, em conjunto com a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (ADEPARÁ) e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural e Abastecimento (Semab), para conter os riscos e monitorar os moradores das comunidades Fuzil e Liberdade, localizadas na rodovia PA-429, a cerca de 41 quilômetros da sede do município, que somam juntas 380 habitantes.

De acordo com o monitoramento epidemiológico, 31 pessoas foram expostas diretamente ao consumo da bebida, ingerida no dia 21 de setembro. Desse total, duas pessoas encontram-se atualmente em Manaus (AM), três em Oriximiná (PA) e as demais permanecem em Óbidos. Todas as pessoas expostas que estão em Óbidos passaram por avaliação clínica minuciosa, realizada por equipes médicas e de enfermagem na própria comunidade Liberdade. Durante a ação de campo, foi realizada a triagem de todos os envolvidos por meio do exame laboratorial de gota espessa (pesquisa de lâmina), método utilizado para identificar a presença do parasita na corrente sanguínea.

Até o momento, há 7 casos confirmados da doença. Desses pacientes, 3 encontram-se hospitalizados e 4 seguem em monitoramento ambulatorial, apresentando quadro clínico estável e assintomático. Entre as internações registradas, os casos que demandam maior atenção são de uma paciente que está sendo assistida pelo Hospital Santa Casa de Óbidos e de um paciente transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Menino Jesus, em Oriximiná. Na fase aguda da infecção, os pacientes manifestaram sintomas semelhantes, incluindo diarreia, febre intermitente, dor gástrica, vômitos, dor generalizada e inchaços na face e nos membros inferiores.

 Excluindo-se os 7 casos confirmados, as outras 24 pessoas expostas seguem em rastreamento epidemiológico e estão sendo submetidas a exames de acompanhamento. O protocolo técnico estabelece que, mesmo diante de um primeiro resultado negativo na lâmina, a investigação diagnóstica deve prosseguir com novas pesquisas laboratoriais e o posterior envio de amostras de sangue para exames de sorologia aprofundados em Belém. Para garantir o suporte à assistência e o controle do surto, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA), por meio do 9º Centro Regional de Saúde em Santarém, tem prestado apoio integral ao município, fornecendo orientações técnicas de manejo clínico e assegurando a dispensação de toda a medicação específica necessária.

Izabela Taketomi, Vigilância Sanitária

A logística de liberação dos medicamentos segue um fluxo rigoroso de controle. De acordo com Isabela Taketomi, diretora-executiva do Departamento de Vigilância em Saúde.

“A medicação de primeira escolha pro tratamento de chagas aguda é Benznidazol de 100 miligramas e ela é fornecida pela Secretaria de Saúde do Estado pelo programa de combate às chagas. Então, à medida que a gente tem casos confirmados de paciente, eu envio para a SESPA a ficha de notificação do paciente junto com a prescrição do tratamento feita pelo médico. E o paciente também é submetido a alguns exames complementares laboratoriais e de imagem antes de iniciar o tratamento medicamentoso. E à medida que eu envio o documento para lá, aí a SESPA libera a medicação para o paciente e envia para a gente aqui”.

Investigação

A investigação sanitária detalhou que o vinho de patauá foi fabricado exclusivamente para o consumo doméstico da família, o frutou foi colhido em outra comunidade. No caso específico, não houve comercialização do produto, mas sim a distribuição entre parentes e conhecidos residentes nas duas comunidades. A equipe de fiscalização identificou o imóvel de origem na Vila Liberdade e constatou graves inconformidades estruturais na área de manipulação do fruto. A despolpadeira operava na varanda da residência, em ambiente aberto, com piso de cimento grosso e desprovida de barreiras físicas ou capas protetoras contra poeira e vetores — condições que propiciam a atração e o contato com o inseto transmissor.

Diante do risco iminente à saúde pública o local foi lacrado, o responsável acatou as determinações e suspendeu voluntariamente todas as atividades de processamento e manipulação de frutos de origem vegetal, como açaí, bacaba e patauá. A Vigilância Sanitária lavrou um Termo de Orientação estabelecendo o prazo de 30 dias para a adequação das instalações. Para que possa retomar o processamento, o produtor deverá reestruturar o espaço físico e participar de capacitações em boas práticas de manipulação de alimentos, cumprindo rigorosamente as etapas de seleção dos frutos, tripla lavagem e o processo térmico de branqueamento, medidas indispensáveis para a eliminação do parasita e a segurança do consumo humano.

Doença de Chagas

A doença de Chagas é uma infecção causada pelo parasita Trypanosoma cruzi. Ela é transmitida principalmente pelas fezes do inseto conhecido popularmente como barbeiro. Na região amazônica, a transmissão oral tornou-se a via mais frequente, ocorrendo quando o inseto ou suas fezes são acidentalmente moídos junto com frutos no momento do preparo de bebidas artesanais (como açaí, bacaba e patauá) sem a devida higienização e tratamento térmico.

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FONTE: Comunicação/PMO - Por: Érique Figueirêdo

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