TERÇA DA CULTURA POPULAR: “Tirar o Cavalo da Chuva”

TERÇA DA CULTURA POPULAR: “Tirar o Cavalo da Chuva”

Célio Simões (*).

Neste início de inverno, quando as chuvas passam a cair com frequência diária na Amazônia durante todo o primeiro semestre, em especial a invariável chuva da tarde da capital paraense, aí está um tema apropriado para abordagem, embora a modernidade de há muito nos propicie os automóveis, a motos e os transportes coletivos como meio de locomoção pessoal, para folga dos animais de tração, não raro muito maltratados pelos próprios donos.

Porém, em tempos pra lá de recuados, principalmente no interior o meio de transporte mais utilizado era o cavalo e as carroças puxadas pelas parelhas, estas, inclusive, incumbidas da venda do leite para o café da manhã até mesmo nas cidades de maior porte, antes da turma miúda se mandar para a escola.

Desde tempos imemoriais, ainda na antiguidade Eurasiana (região que outrora abrangia a Ucrânia, parte da Rússia e o Cazaquistão), se tem notícia do uso do cavalo para a movimentação de charretes, carroças, arados, grades, e cultivadores, tanto no plantio como na colheita, afora pomposas carruagens imperiais, estas, inicialmente na região da Mesopotâmia, espalhando-se ao depois por todas as cintilantes monarquias europeias, consagrando o uso do cavalo para o transporte, para a arte da guerra (a arma de Cavalaria decorre dessa longínqua época) e de modo indispensável na agricultura não mecanizada, para o amanho da terra e mobilidade das pessoas e da produção.

No Brasil, sem qualquer vinculação com esta ou aquela região geográfica, as viagens a cavalo duravam dias e as paradas na casa de conhecidos ou amigos, para descanso e alimentação, eram vistas com absoluta naturalidade. Pedir ao dono da casa “um agasalho” para pernoitar não era extravagante ou inusitado, pleito escorado quase sempre na relação de confiança da gente simples do campo, conhecida pela sua tradicional hospitalidade, fazendo com que a família não só permitisse a pousada, como também lhe fosse oferecida água e alimento, para a recuperação do corpo e a mitigação do cansaço.

O modo de chegar cavalgando a determinado sítio para postular tais favores, tinha o condão de deixar evidente, de plano, a intenção do visitante. Se a montaria fosse amarrada à frente da residência, significava uma estada breve, apenas para mitigar a sede e seguir em frente. Entretanto, se o cavaleiro o fazia num dos barracões da parte posterior da morada, era óbvio que a intenção era o peão demorar mais, coisa de muitas horas ou até de dia inteiro.

Na primeira situação, um cumprimento cortês, um gole d’água, uma conversa rápida e boa viagem... Na segunda, além da água, uma prosa mais elaborada despertava o subjacente interesse do anfitrião pela narrativa do visitante, que acabava ficando. Mas a expressão surgiu justamente na hipótese mais improvável, quando o viajante demonstrando pressa, decidia se mandar, prosseguir na jornada, sendo surpreendido pelo o dono da casa ao lhe dizer: “Pode tirar o cavalo da chuva, fique mais um pouco”. Estava assim o estranho autorizado a levar sua montaria para um local mais abrigado, pois a conversa seca e breve ia demorar bastante, por alguma empatia surgida entre eles.

Com o passar do tempo, o sentido da expressão foi mudando, ampliou-se e atualmente significa que alguém deve desistir de um propósito qualquer, que se mostra ou se tornou impossível para quem acalenta determinada pretensão, às vezes pronunciada de forma irônica, no diminutivo como fazem em Portugal, para melhor ironizar quem alimenta esperança de êxito em algo inalcançável: “Pode ir tirando o cavalinho da chuva”...

Certas expressões sintetizam situações que gastariam mais tempo para serem explicadas ou descritas, revelando o que se deseja exprimir numa única frase. Neste aspecto, “tirar o cavalo da chuva” chega a ser emblemático. Hoje, quando alguém a usa, sugere que o sujeito não deve esperar que determinado acontecimento se materialize, que alguém deve desistir de algo, perder as esperanças, pois o objetivo perseguido não se concretizará:

– Vai viajar para São Paulo amigo?

– Sim, amanhã!

– Pois pode tirar o cavalo da chuva, que o teu voo foi cancelado... 

Na nossa música popular, a conhecida expressão inspirou a dupla sertaneja Leôncio e Leonel a uma composição com o nome de “Pode Tirar seu Cavalo da Chuva”, estilo sofrência, cujo texto poético aqui parcialmente reproduzido, só confirma o sentido com que atualmente é empregada:

Meu coração não é carro de praça
Que pega e deixa quando lhe convém
Você saiu a passear com outro
Eu não liguei para mais ninguém

Já fui seu bobo, já fui seu palhaço
Hoje de trouxa você não me faz
Pode tirar o seu cavalo da chuva
Que a seu lado eu não volto mais

O professor Dionísio Silva, da Universidade Federal de São Carlos (SP), entende que tal expressão nasceu no Brasil na região dos pampas, mercê do costume do gaúcho de recolher seu cavalo no galpão ao primeiro sinal de chuva, quando ia ao armazém fazer compras. Assertiva que no mínimo conflita com o costume português ("tirar o cavalinho da chuva") considerando que quase tudo o que herdamos, em termos linguísticos, veio de lá com Cabral...

(*) O autor é paraense, advogado, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (Maringá/PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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