BOA DE OUVIR, BOA DE DANÇAR

BOA DE OUVIR, BOA DE DANÇAR

Haroldo Figueira

Em sã consciência, ninguém deseja remoer mágoas ou relembrar momentos infelizes. Por outro lado, a todos agrada conviver com boas lembranças. Talvez por conta disso, nossa memória cuidou de desenvolver um mecanismo de filtragem que mantém na superfície as recordações agradáveis e empurra para os subterrâneos da mente as que nos causaram dissabores.

Noutras palavras, as coisas más a gente quer esquecer, enquanto as coisas boas sonhamos revivê-las. Nesta perspectiva, nossos sentidos mantêm-se em estado de alerta e, ao mais tênue vestígio da presença de algo que sugira trazer-nos de volta alguma passagem bonita de nossas vidas, reagem enchendo-nos de saudade, esperança e prazer.

Às vezes nem é preciso que o reencontro com o passado aconteça efetivamente, basta imaginar o cheiro familiar de um perfume, o gosto especial de um alimento ou de uma bebida saboreados em boa companhia, a similitude de um gesto acariciante, o impacto visual de uma fotografia ou de uma outra recordação que nos remeta à imagem de uma pessoa querida, o som de uma bela  melodia que guardamos com carinho, para que antigas emoções represadas aflorem novamente.

Isso se dá comigo, por exemplo, quando ouço “Besa-me Mucho”, na versão gravada por Ray Coniff. Aliás, a relação sentimental entre e mim e essa pérola do cancioneiro latino não é nova, remonta à época de seu lançamento no mercado fonográfico brasileiro, nos idos de 1960. E não sou o único afetado por ela. Tenho razões para crer que, entre os meus contemporâneos de juventude, há bem mais gente contagiada.

A música a que fiz menção pertence ao mesmo celeiro de preciosidades latinoamericanas que armazena composições do quilate de “Palabras de Mujer”, “Perfídia”, “Aquellos Ojos Verdes”, “Pecado”, “Solamente Uma Vez”, “Jura-me”, “Nosotros”, “El Reloj”, “La Barca”, “Noche de Ronda” e tantos hits românticos mais. Em matéria de beleza melódica, torna-se difícil apontar qual a mais bonita.

Aduza-se que “Besa-me Mucho” carrega na sua trajetória existencial toda uma honrosa tradição. Faz sucesso desde 1940, ano em que foi composta pela mexicana Consuelo Velásquez, então com 16 anos. Agrega ao glorioso histórico, ainda, a façanha de ter sido reconhecida como a mais tocada, gravada e traduzida canção do idioma espanhol.

Nada obstante esse rico retrospecto, o trabalho de repaginação realizado por Ray Coniff deixou o conhecido bolero ainda mais atraente e sedutor, além de aumentar-lhe a popularidade. Para a alegria dos admiradores da canção, funcionou bem demais a técnica inovadora empregada pelo maestro americano de associar o som de metais graves (trombones, trompas e saxofones baixos) e agudos (pistões, clarinetes e saxofones altos), respectivamente às vozes masculinas e femininas do coral, em harmoniosa combinação.

No que concerne à minha experiência pessoal, a partir do momento em que o disco de vinil trazendo em uma das faixas a famosa música mexicana com seu novo arranjo foi lançado, perdi a conta das vezes que dancei ao som e ao ritmo dela. Fiz isso em diferentes lugares e ocasiões, a começar pelos improvisados “assustados” e tertúlias em casas de família, à base de radiola, promovidos pela antiga Juventude Recreativa Obidense (JRO), passando pelos bailes da ARP e do Mariano e, extrapolando as fronteiras da minha cidade, em inúmeros clubes e eventos sociais Brasil afora.

Durante esses anos todos, pude testemunhar uma cena que se repete. A festa pode até começar morna, mas quando o conjunto musical ataca de “Besa-me Mucho” o salão parece que entra em ebulição. Ao ouvir o pam-pa-ra-ram característico da parte inicial, não há quem se disponha a ficar sentado. Independentemente da faixa etária, casais que antes aparentavam falta de animação, de repente se levantam e dirigem-se à pista de dança para bailar agarradinhos, envolvidos pelo clima de romantismo que a quase octogenária melodia até hoje inspira.

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