OS RELICÁRIOS

OS RELICÁRIOS

O Artigo de Dino Priante, OS RELICÁRIOS, fala de um dos mais antigos conjuntos musicais de Óbidos.

Dino Priante. 

Quanta saudade! Foi um dos melhores conjuntos musicais que conheci em Óbidos.

Um rapaz de baixa estatura , franzino, vindo de Belém, para trabalhar no Banco do Brasil na agência de nossa cidade, de nome Ricardo, logo apelidado de Cricri, visto que,  nossos conterrâneos são exímios em colocar apelidos. Por volta de 1966, ele formou um conjunto musical, que tinha como Saxofonista o Idalmir, cantor o Gracinha (Brocoió), na guitarra o Tibinga, contra baixo  o Barrinho, na bateria o Vilson. Nessa época eu e mais uns amigos estudávamos Inglês na casa do professor Ricardo, o método era o Yázigi, as poucas palavras que conheço de Inglês, aprendi com o Cricri, o curso era todo apostilado, tinha os LP’s, ouvíamos a pronuncia e repetíamos. Após nossas aulas, geralmente começava o ensaio do conjunto, e com os ensaios eles iam se aperfeiçoando, e tocando cada vez melhor. Nós que conhecíamos apenas o “Jazz Palmeiras” que tinha como saxofonista o Roosevelt, cantor o Riri, no pandeiro o Besouro, na bateria o Nando( filho do sr. Antonico) e no bandolim o Santana. Esse conjunto tocava muito na sede do sr.Antonico, sede do Sindicato dos Estivadores e no Shangrilá. Mas o forte era as festas pelos interiores de Óbidos (Parú, Costa de Baixo, Costa de Cima, Muratuba etc),  quando retornavam das festas , geralmente às segundas-feiras  lá pelas cinco e trinta da manhã, cada um ia para suas outras atividades, Roosevelt era pedreiro, Nando barbeiro, Besouro era servente de Pedreiro, Santana  se não estou enganado era pedreiro também e o Riri apenas cantor.

Mas voltando aos “Os Relicários”, o sucesso era tão grande que eles iam tocar em Santarém que tinham “Os Vips”, em Oriximiná que era uma  rivalidade terrível, e outras  cidades do baixo amazonas.

As festas da  ARP só davam “Os Relicários”, as quermesses do São Francisco, Salão Paroquial. Agenda de final de semana era sempre cheia. Em 1967, uma  turma do ginásio foi convidada para ir a Parintins, jogar uma partida de futebol com o pessoal da Escola Batista, a convite do pastor Lessa que era genro do Sr. Brelaz, e “Os Relicários” foram  junto, pois iriam fazer uma apresentação no Clube Palmeiras. Quando chegamos em Parintins, viajando no pomposo b/m Cidade de Óbidos que pertencia ao sr Dico Cruz, era  um foguetório  enorme em nossa recepção. Quando saltamos, perguntei a um paratinense se havia alguma autoridade chegando também naquele momento? Respondeu-me que não, era só a caravana obidense. Lembro-me que as moças fizeram um corredor polonês para passarmos, e o mesmo os rapazes fizeram para nossas colegas.

Quando fomos fazer o “City Tour”, obviamente que a pé, após caminhar alguns minutos deparamos com o aeroporto, fiquei surpreso, já que o nosso fica a cerca de 5 kms. do centro da cidade, assim como a Catedral que já tinha alguns anos que vinha sendo construída(20 ou 30 anos) e ainda faltava muita coisa.. Hoje Parintins é conhecida internacionalmente  pelo festival dos bois(Caprichoso e Garantido), é uma bela cidade.

O almoço foi um  churrasco na Fabril (Usina de juta), a farinha era servida em uma bacia média, o refrigerante era laranjada Moleque de fabricação local, tudo servido muito à vontade.

À tarde fomos jogar futebol, que foi transmitida pela rádio Alvorada, a única torcida a nosso favor, foram às nossas colegas que estavam  no estádio torcendo por nós. O placar senão estou enganado foi 3 x 3, o árbitro só terminou o jogo depois que eles empataram .

A noite foi a grande festa dançante no Clube Palmeiras, com “Os Relicários” arrasando, fazendo  grande sucesso. O interessante dessa festa foi que as mulheres fizeram mais sucesso que os homens, todas arranjaram namorados. Quando nos dirigimos para bordo  pela madrugada, após a festa, ficamos no trapiche aguardando  a chegada do pessoal,  quando pintava uma que tinha deixado o namorado em Óbidos e chegava acompanhada, chamávamos pelo  nome do “chifrudo”, obviamente elas sabiam de quem se tratava mais seu companheiro desconhecia, era uma tremenda “gozação”. Mas foi um dos passeios inesquecíveis.

Fiz amigos paratinenses, que depois viemos a estudar juntos aqui em Belém no Colégio Augusto Meira, hoje um é deputado federal, outro é do Tribunal de Contas da União, outra é  advogada , engº Agrônomo e por aí vai.

Duas músicas tocadas pelos Relicários, me fazem retornar aqueles bons tempos: O Milionário e Era um garoto que amava os Beatle e os Rolling Stones  muito bem  dedilhado   pelo Tibinga.

Acredito que hoje já  existam bons conjuntos  musicais em Óbidos, talvez até  melhor ou pelo menos igual ao saudoso “Os Relicários”. 

FONTE: PRIANTE, Dino. ÓBIDOS DE ANTANHO: Livro de crônicas de Dino Priante (2019)

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